O Grande Teatro do Silêncio

Abra os olhos, cidadão, se é que o peso da incerteza ainda lhe permite tal ousadia. Olhe ao redor e responda, sem gaguejar para não atrair o olhar vigilante dos novos censores de plantão: em que sistema de governo você realmente acredita que acorda todas as manhãs? Se você ainda balbucia palavras como democracia plena ou independência dos poderes, sinto informar que seu relógio parou em uma era que já não existe mais. Vivemos hoje sob o suntuoso império da dúvida, onde a regra do jogo parece mudar conforme o vento das conveniências, e a nossa velha Constituição de 1988 assemelha-se, cada vez mais, a uma relíquia de museu: bela de se olhar, mas proibida de se tocar.

A teoria que aprendemos nos livros é didática, quase lúdica: o Executivo executa, o Legislativo fiscaliza e o Judiciário atua como o árbitro imparcial. Mas, na prática do cotidiano brasileiro, o que vemos é uma coreografia estranha. Onde foi parar o equilíbrio? A pergunta que arde na alma de quem ainda ousa refletir é simples, porém mortal: quem fiscaliza o fiscal? O Legislativo, que deveria ser o escudo do povo, parece ter trocado sua coragem por um silêncio obsequioso. O Executivo, por sua vez, caminha em um campo minado de interpretações, onde cada gesto pode ser anulado por uma canetada solitária. E o Judiciário? Este parece ter assumido para si a missão de ser o regente absoluto de uma orquestra que já não toca a mesma música da vontade popular.

Sentimos uma repulsa silenciosa, sim. Uma indignação que queima no peito ao ver o conformismo dominar as esquinas por puro receio de retaliação. É um alarme que toca em um deserto de ideias: acorde! Se os freios e contrapesos que sustentam a República parecem gastos e sem efeito, o que resta ao homem comum? Resta a consciência de que a liberdade não é um favor concedido pelo Estado, mas um valor intrínseco à dignidade humana. Eles desejam que você se sinta pequeno, que acredite que as grandes decisões são complexas demais para o seu entendimento. Mas a verdade é clara: um sistema onde as fronteiras entre acusar, julgar e legislar se tornam nebulosas coloca em risco a segurança de todos nós. Reflita, com a profundidade que o momento exige, antes que o ato de pensar se torne o último refúgio da clandestinidade.

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Alexandre França

Jornalista do Jornal O Fluminense, ajudando a dar continuidade a uma história de tradição e seriedade no jornalismo brasileiro.

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