O Banquete das Máscaras: Onde o Bilhão é Invisível

A hipocrisia é o mais refinado dos venenos, servido em taças de cristal para um povo que ainda luta pelo pão. No dicionário, é a arte de fingir virtudes que não se possui. Na política brasileira, é um método de sobrevivência. É o dedo em riste de quem condena o cisco no olho do vizinho enquanto ignora uma viga de ouro encravada no próprio peito. É o teatro do absurdo encenado com o suor do pagador de impostos.

Lembram-se de março de 2022? O ar pesava com o cheiro da falsa moralidade. Um certo parlamentar do PT, em tom profético e colérico, bradava nas redes sociais contra o gasto de 2 milhões de reais no cartão corporativo do governo anterior. Chamava-o de perdulário. Fazia contas alarmistas, previa o caos e clamava por austeridade como se fosse um monge franciscano. Naquela época, a indignação era um vulcão em erupção, pronta para incinerar qualquer centavo que não passasse pelo seu crivo ideológico.

Mas o cenário mudou e as máscaras caíram. O figurino agora é de seda, e os atores são os mesmos que antes pregavam a pobreza. O atual governo, aliado íntimo do tal parlamentar, já derreteu no mesmo cartão a cifra estratosférica de 1,4 bilhão de reais. E o que temos agora? Um silêncio sepulcral. A fúria desapareceu. O “perdulário” de ontem virou o “gastador necessário” de hoje. A verba que antes era pecado capital, agora é tratada como virtude administrativa.

É um tapa na “cara” do Brasil real. Enquanto o bilhão flui livremente pelos corredores acarpetados de Brasília, milhões de brasileiros seguem esquecidos, sobrevivendo na miséria absoluta dos sertões secos, das favelas sem saneamento e dos rincões onde o Estado só aparece para cobrar, nunca para estender a mão. É um drama nacional: a elite política esbanja com o plástico oficial, enquanto o pai de família, em algum canto desolado deste país, conta moedas para garantir ao menos uma refeição.

Onde foi parar a coerência? Onde se meteu aquela ética inabalável que rugia na oposição? Morreu no dia da posse. Isso é hipocrisia em estado puro, um escárnio com a inteligência de quem produz e carrega o piano. É alarmante que o silêncio de quem antes gritava seja hoje o maior cúmplice dessa farra. A indignação não pode ter partido e a repulsa deve ser o grito de quem não aceita mais ser figurante nesse banquete de hipócritas. Acorde! A conta é sempre sua, mas o banquete é só deles.

Por Alexandre França – Jornalista

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