O FLUMINENSE analisa erros das últimas eleições e apresenta um teste experimental para medir fatores que podem separar pesquisa e urna
Por Wellyngton Inácio
O primeiro Datafolha do segundo turno presidencial de 2026 coloca Flávio Bolsonaro (PL) com 52% dos votos válidos e Lula (PT) com 48%. Considerando o total dos entrevistados, são 49% para Flávio, 45% para Lula, 5% de brancos e nulos e 1% de indecisos. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
O levantamento ouviu 2.520 eleitores em 153 municípios entre os dias 6 e 7 de outubro e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-02949/2026. A pergunta que permanece, porém, é outra: até que ponto essa fotografia será reproduzida nas urnas?
O FLUMINENSE analisou as rodadas finais do Datafolha nas eleições presidenciais de 2018, 2022 e 2026. O objetivo não foi fabricar uma correção depois de conhecer os resultados, mas procurar padrões que possam ser definidos antes da votação e depois confrontados com a urna.
Primeiro turno mostrou um padrão
Em 2018, na última pesquisa do primeiro turno, Jair Bolsonaro aparecia com 40% dos votos válidos. Terminou com 46,03%. Fernando Haddad tinha 25% e alcançou 29,28%. Os dois principais candidatos, portanto, estavam subestimados.
Em 2022, a rodada final mostrava Lula com 50% dos válidos e Bolsonaro com 36%. A urna terminou em 48,43% contra 43,20%. Bolsonaro ficou 7,2 pontos acima da pesquisa, enquanto Lula ficou 1,57 ponto abaixo.
Em 2026, na véspera do primeiro turno, Lula tinha 45% dos válidos e Flávio Bolsonaro, 42%. Nas urnas, Lula ficou praticamente no mesmo patamar, com 45,16%, enquanto Flávio chegou a 47,03%.
Nas três eleições analisadas, a soma dos dois candidatos principais terminou maior nas urnas do que aparecia na pesquisa final. Parte do voto que estava nos candidatos menores se concentrou nos nomes competitivos quando o eleitor chegou à decisão final.
O segundo turno é outro regime
Com apenas dois candidatos, esse reservatório de voto potencialmente móvel praticamente desaparece. O histórico mostra que o Datafolha foi muito mais preciso nos segundos turnos.
Em 2018, o instituto apontou 55% para Bolsonaro e 45% para Haddad. A urna registrou 55,13% e 44,87%. Em 2022, o último levantamento indicou Lula com 52% e Bolsonaro com 48%. O resultado foi 50,90% a 49,10%.
Isso impede que se transporte mecanicamente para o segundo turno de 2026 a diferença de aproximadamente cinco pontos observada para Flávio Bolsonaro no primeiro turno.
O que pode produzir o erro
A análise eliminou explicações simplistas. Convicção declarada, voto espontâneo e segunda opção ajudam a descrever o eleitorado, mas não reproduzem de forma estável a magnitude do erro observado em 2018, 2022 e 2026.
Uma hipótese mais consistente está na composição de quem responde às pesquisas e de quem efetivamente comparece. A literatura internacional chama atenção para o chamado viés de não resposta: grupos politicamente distintos podem aceitar participar de pesquisas em proporções diferentes mesmo quando possuem características demográficas semelhantes.
A força-tarefa da American Association for Public Opinion Research sobre a eleição norte-americana de 2020 apontou a não resposta diferencial como uma das hipóteses relevantes para a subestimação do voto republicano. O relatório também destacou que a margem de erro convencional não cobre sozinha problemas de cobertura, não resposta e composição do eleitorado que comparece.
Isso não prova que o mesmo mecanismo esteja operando no Brasil ou especificamente no Datafolha. O ponto é metodológico: uma amostra pode representar adequadamente idade, sexo, renda e escolaridade e ainda assim não reproduzir exatamente o comportamento político de quem chegará às urnas.
O teste de O FLUMINENSE
O número oficial que será preservado como referência é o divulgado pelo Datafolha: Flávio Bolsonaro com 52% e Lula com 48% dos votos válidos.
O FLUMINENSE acompanhará o levantamento com um teste de sensibilidade baseado em informações definidas antes da votação. O objetivo é verificar se fatores como consolidação do voto, rejeição, mobilização e comportamento histórico do instituto em segundos turnos alteram de forma útil a leitura do levantamento.
A metodologia não será modificada depois que as urnas forem abertas. Isso é essencial para evitar overfitting, quando uma fórmula é ajustada depois de conhecido o resultado apenas para parecer mais precisa.
Como referência histórica, nos dois segundos turnos presidenciais anteriores o Datafolha apresentou erro muito pequeno na rodada final. Por isso, a leitura experimental para 2026 não prevê um deslocamento amplo como o observado nos primeiros turnos. O intervalo de sensibilidade fica próximo do número original, aproximadamente entre 50,9% e 53,1% para Flávio Bolsonaro e entre 46,9% e 49,1% para Lula.
Essa faixa não é uma pesquisa e não substitui o levantamento do instituto. É um experimento estatístico. Depois da eleição, será possível medir objetivamente se a utilização desses fatores produziu uma leitura melhor ou pior do que o Datafolha puro.
Referências
Datafolha: Flávio 52% e Lula 48% nos votos válidos
AAPOR: avaliação das pesquisas eleitorais de 2020
AAPOR: recursos sobre pesquisas eleitorais e precisãoEstudo acadêmico sobre voto estratégico no Brasil em 2018