Frente fria encontrou atmosfera aquecida e produziu rajadas acima de 100 km/h, com quedas de árvores, apagões e transtornos nos transportes
A ventania no Rio de Janeiro registrada na tarde de quarta-feira, 29 de julho, atingiu força suficiente para derrubar árvores, danificar estruturas, interromper o fornecimento de energia e comprometer diferentes meios de transporte. A maior rajada foi medida no Aeroporto Internacional do Galeão, onde o vento chegou a 105,5 km/h às 17h.
O fenômeno ganhou intensidade rapidamente. Às 16h50, o município entrou no Estágio 2, o segundo nível de uma escala de cinco, devido ao registro de ventos fortes e muito fortes. O balanço oficial do Centro de Operações e Resiliência também apontou rajadas de 95,4 km/h em Marambaia, 87,5 km/h na Vila Militar e 83,3 km/h no Campo dos Afonsos.
Calor e frente fria explicam a força do vento
A intensidade das rajadas foi provocada pelo encontro de duas condições atmosféricas opostas. Antes da chegada do sistema, a capital enfrentava calor muito acima do normal para julho. A temperatura máxima alcançou 35,8°C na Vila Militar, uma das maiores registradas no mês desde o início da operação daquela estação meteorológica, em 2007.
Ao mesmo tempo, uma frente fria avançava pelo oceano e empurrava ar mais frio em direção ao estado. O forte contraste entre a massa de ar quente e seco que estava sobre o Sudeste e o ar frio associado à frente aumentou a instabilidade.
A análise meteorológica da Climatempo explica que esse choque favoreceu a formação de uma linha de rajada. Nesse processo, o ar frio avança rapidamente por baixo do ar quente, deslocando grande quantidade de ar próximo à superfície. Por isso, o vento chegou com força antes mesmo de qualquer chuva mais significativa.
No Galeão, as mensagens meteorológicas do aeroporto chegaram a registrar redução da visibilidade devido à areia levantada pelo vento. A situação mostrou que uma ventania severa pode produzir danos mesmo sem temporal prolongado ou grande volume de chuva.
Árvores, desabamentos e apagões
O impacto atingiu diferentes regiões da capital e alcançou municípios como Niterói e Nova Iguaçu. Na cidade do Rio, o COR relacionou quedas de árvores no Centro, Botafogo, Grajaú, Bonsucesso, Ramos, Cachambi, Curicica, Jacarepaguá, Jardim Guanabara e Santa Cruz, entre outros pontos.
O levantamento divulgado na manhã desta quinta-feira contabilizava 291 ocorrências relacionadas ao vento em todo o estado, incluindo 154 serviços envolvendo árvores, 31 salvamentos e cinco desabamentos. Duas pessoas morreram após a queda de um muro em Santa Teresa, na região central da capital.
A interrupção de energia também teve grande alcance. Cerca de 370 mil clientes da Light ainda estavam sem fornecimento na manhã desta quinta-feira. Entre os bairros mais atingidos apareciam Campo Grande, Bangu, Anchieta, Tijuca, Catumbi, Jacarepaguá, Santa Cruz e Recreio dos Bandeirantes.
Transporte sofreu reflexos
A queda de árvores e os problemas na rede elétrica afetaram a circulação ferroviária. O ramal Japeri operava parcialmente, apenas entre Nova Iguaçu e a Central do Brasil, enquanto os trechos até Japeri e Paracambi permaneciam suspensos. O ramal Saracuruna também registrava maiores intervalos e necessidade de baldeação.
No Aeroporto Santos Dumont, quatro voos foram cancelados na manhã desta quinta-feira devido aos reflexos das condições meteorológicas do dia anterior. Vias importantes foram liberadas, mas ainda havia pontos em processo de retirada de árvores e recuperação da infraestrutura.
O que a população deve fazer
Árvores inclinadas, galhos presos, muros comprometidos e fios caídos ainda podem oferecer risco mesmo depois da redução do vento. A população não deve tocar em cabos, tentar retirar árvores ou permanecer perto de estruturas danificadas.
Situações de emergência devem ser comunicadas ao Corpo de Bombeiros pelo 193 ou à Defesa Civil pelo 199. O cidadão também pode receber avisos gratuitos da Defesa Civil enviando o CEP de sua residência por SMS para o número 40199.
Nesta quinta-feira, o COR prevê ventos predominantemente moderados, queda de temperatura e possibilidade de chuvisco ou chuva fraca isolada à noite. A máxima prevista é de 27°C, bem abaixo do calor registrado antes da passagem da frente fria.
A ventania mostrou que o risco não depende apenas da chuva. Alertas meteorológicos, manutenção das árvores, fiscalização de estruturas e resposta rápida das concessionárias são essenciais para impedir que um fenômeno de poucas horas continue produzindo consequências por vários dias.