Vendaval no Rio danificou o carro: quem paga?

Foto: Divulgação legenda: O advogado Ramon Camurugy

Seguro pode cobrir alagamento e queda de árvore, mas indenização depende do contrato e, em casos de falha urbana comprovada, pode envolver o poder público

Carro danificado por vendaval virou uma preocupação concreta para motoristas após os ventos intensos que atingiram o Rio de Janeiro na quarta-feira, 29 de julho. A maior rajada chegou a 105,5 km/h no Aeroporto do Galeão, enquanto quedas de árvores foram registradas em dezenas de ruas da capital, segundo o balanço do COR-Rio.

Depois da emergência, surge a dúvida: quem paga pelo vidro quebrado, pela lataria amassada ou até pela perda total do veículo? A resposta depende de três pontos principais: a cobertura contratada, a causa do acidente e a possibilidade de provar que outra pessoa, empresa ou órgão público contribuiu para o prejuízo.

Apólice deve ser conferida primeiro

Segundo o advogado Ramon Camurugy, especialista em Direito Administrativo e Licitações, o proprietário deve começar pela leitura da apólice.

“Nem todo seguro oferece a mesma cobertura. Existem contratos que incluem danos provocados por enchentes, queda de árvores e granizo, enquanto outros possuem limitações. Por isso, a análise da apólice é sempre o ponto de partida”, afirma.

A Superintendência de Seguros Privados informa que as apólices de automóveis podem oferecer proteção para eventos como queda de objetos, granizo e submersão provocada por enchentes, mas a cobertura não deve ser presumida. O segurado precisa verificar as condições gerais, os riscos contratados, as exclusões e o valor da franquia.

Quando o evento estiver coberto, o motorista deve comunicar o sinistro imediatamente à seguradora e guardar o protocolo. Para avarias parciais, a orientação da Susep é aguardar a autorização da empresa antes de iniciar o conserto. A oficina poderá ser escolhida livremente ou entre estabelecimentos credenciados, conforme o contrato.

Poder público não paga automaticamente

A existência de uma árvore em via pública ou de um alagamento numa rua municipal não torna a prefeitura automaticamente responsável. É necessário demonstrar uma falha concreta na prestação do serviço e a ligação direta entre essa falha e o dano sofrido.

Esse debate pode surgir, por exemplo, quando uma árvore apresentava sinais visíveis de risco, havia pedidos anteriores de poda ou remoção e nenhuma providência foi tomada. O mesmo vale para situações em que o motorista consiga demonstrar que o alagamento foi agravado por deficiência conhecida na drenagem, falta de manutenção ou omissão diante de ocorrências repetidas.

“Não basta que tenha chovido. É necessário verificar se houve falha na prestação do serviço público e se existe relação direta entre essa falha e o prejuízo sofrido pelo motorista”, explica Camurugy.

A Constituição estabelece que pessoas jurídicas de direito público e empresas privadas prestadoras de serviços públicos respondem por danos causados a terceiros por seus agentes. A aplicação dessa regra, porém, depende das circunstâncias e das provas produzidas em cada caso.

Sem cobertura securitária e sem elementos que demonstrem responsabilidade de terceiro ou do poder público, o custo tende a permanecer com o proprietário do automóvel.

Provas podem definir a indenização

Fotografias do veículo e do local devem ser feitas antes da retirada de galhos ou do início do reparo, sempre que isso puder ocorrer com segurança. Vídeos, imagens de câmeras próximas, relatos de testemunhas e registros meteorológicos também ajudam a reconstruir o episódio.

O motorista deve guardar ainda boletim de ocorrência, protocolos da prefeitura ou concessionária, comprovante do aviso à seguradora, orçamentos, notas fiscais, laudos e mensagens trocadas durante o atendimento.

Nos casos envolvendo árvore em área pública, também é útil registrar o estado do tronco e das raízes, além de verificar se moradores já haviam comunicado o risco. Em alagamentos, imagens do nível da água, da sinalização e das condições da via podem ser decisivas.

O que fazer nas primeiras horas

  1. Fotografe o carro e o local por diferentes ângulos.
  2. Não toque em fios caídos nem tente remover árvores sem apoio técnico.
  3. Comunique imediatamente a seguradora e guarde o protocolo.
  4. Aguarde a autorização antes de iniciar o conserto.
  5. Registre a ocorrência no órgão público responsável quando houver suspeita de falha urbana.

Se a seguradora negar a cobertura, o consumidor deve solicitar a justificativa por escrito e a cláusula contratual usada na decisão. Persistindo o conflito, pode procurar a ouvidoria da empresa, o Procon ou registrar reclamação no Consumidor.gov.br, plataforma acompanhada pela Susep.

O temporal pode durar poucos minutos, mas a discussão sobre o prejuízo depende de método. Conferir a apólice, preservar provas e identificar corretamente a causa do dano são as medidas que aumentam a possibilidade de ressarcimento e evitam que o motorista assuma uma conta que poderia caber a outro responsável.

Compartilhe:

Facebook
X
Telegram
WhatsApp
Email
Picture of Jornal O Fluminense

Jornal O Fluminense

Há mais de 148 anos, nossa missão é informar com seriedade, defender o interesse público e acompanhar o desenvolvimento da nossa terra e da nossa gente.

Leia também:

Monitor da ANA aponta expansão do fenômeno, com agravamento em áreas do Norte e do Nordeste e aumento de municípios sob seca severa.
Paralisação começou em 10 de setembro e tem como principal impasse as condições de custeio do Saúde Caixa.
Primeira onda de calor da primavera provoca temperaturas extremas em várias regiões; mudança no tempo é esperada com avanço de frente fria.
Carga foi encontrada em dois veículos após monitoramento de uma embarcação vinda do Paraguai na região de Jupira.
Homem foi preso em flagrante por posse ilegal de arma de uso restrito; dois artefatos explosivos foram detonados de forma controlada.
Entre 25 e 28 de setembro, operações da Polícia Federal no aeroporto resultaram em prisões, apreensões de cocaína e cumprimento de mandados.

Edições Certificadas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Siga os canais de notícias da sua região

Mantenha-se informado sobre  que acontece na sua região seguindo os canais de notícias do Jornal O Fluminense.