El Niño ganha força e pode intensificar extremos climáticos no Brasil

Foto: NOAA Climate.gov / Coral Reef Watch Legenda: Imagens mostram a mudança das anomalias de temperatura no Pacífico Tropical entre maio de 2022 e maio de 2023, período em que águas mais frias associadas à La Niña deram lugar ao aquecimento que antecedeu o El Niño. A comparação é ilustrativa e não retrata as condições de 2026.

Fenômeno já está estabelecido no Pacífico e pode atingir intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão de 2026/2027

O El Niño 2026 já está estabelecido no Oceano Pacífico Equatorial e deve continuar ganhando força nos próximos meses. A perspectiva aumenta a atenção sobre mudanças nos padrões de chuva, ondas de calor, estiagens e episódios de precipitação intensa em diferentes regiões do Brasil.

O mais recente boletim conjunto coordenado pelo Instituto Nacional de Meteorologia, o INMET, aponta elevada probabilidade de o fenômeno alcançar intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão de 2026/2027. O documento reúne análises de órgãos como INPE, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil Nacional e Censipam.

A preocupação também é acompanhada por Eduardo Baldaci, conhecido como “O Cara do Clima”, que vive nos Estados Unidos e acompanha alertas e projeções meteorológicas da NOAA. A partir desse trabalho de divulgação preventiva para brasileiros, Baldaci chama atenção especialmente para a necessidade de transformar previsões climáticas em preparação antes que situações de emergência ocorram. O material encaminhado por ele à redação serviu como ponto de partida para esta reportagem.

O que significa um El Niño muito forte

O El Niño ocorre quando o aquecimento persistente das águas superficiais do Pacífico Equatorial passa a interagir com a atmosfera e modifica padrões de circulação em grande escala.

A expressão “Super El Niño”, usada com frequência para identificar episódios excepcionalmente intensos, não é a classificação técnica adotada pelos principais centros meteorológicos. Os órgãos de monitoramento trabalham com categorias de intensidade determinadas principalmente pelas anomalias da temperatura da superfície do mar.

No Brasil, o boletim oficial sobre o El Niño informa que as projeções apontam possibilidade de anomalias superiores a 2°C em áreas do Pacífico durante a fase mais intensa do evento.

A NOAA também confirma o fortalecimento do fenômeno. Na atualização divulgada em julho, o índice semanal da região Niño 3.4 estava 1,2°C acima da média, e a agência estimava 97% de probabilidade de permanência do El Niño até o início de 2027. Os modelos indicavam ainda 81% de chance de um evento muito forte entre outubro e dezembro.

Efeitos variam pelo território brasileiro

Os impactos do El Niño não acontecem da mesma maneira em todas as regiões.

Historicamente, episódios do fenômeno estão associados ao aumento da probabilidade de chuvas acima da média no Sul do país. Em áreas do Norte e Nordeste, ocorre tendência oposta, com maior risco de redução das precipitações e estiagens.

O Centro-Oeste e partes do Sudeste também podem registrar períodos mais quentes e secos, mas não é correto tratar esses efeitos como consequência automática para cada município. A influência de sistemas regionais, das condições do Oceano Atlântico e de outros componentes atmosféricos continua sendo decisiva.

Para o Estado do Rio de Janeiro, portanto, o El Niño deve ser entendido como um fator que altera as probabilidades climáticas, e não como previsão antecipada de um evento específico.

A própria previsão climática do INMET para agosto mostra essa complexidade. O instituto projeta comportamentos diferentes de chuva dentro das mesmas grandes regiões brasileiras, reforçando que o acompanhamento precisa ser atualizado mês a mês.

Oceanos aquecidos entram na equação

Outro ponto que amplia a atenção dos cientistas é o ambiente climático em que esse El Niño se desenvolve.

O aquecimento dos oceanos aumenta a quantidade de calor disponível no sistema climático. Isso não significa que toda tempestade, seca ou onda de calor possa ser atribuída isoladamente ao El Niño ou às mudanças climáticas, mas a combinação de fatores pode influenciar a intensidade e a frequência de determinados extremos.

A comparação histórica também ajuda a entender o fenômeno. A imagem utilizada nesta reportagem foi produzida pela NOAA Climate.gov, com dados do Coral Reef Watch processados pelo NOAA Environmental Visualization Lab, e mostra a transição registrada entre dezembro de 2022 e maio de 2023, quando águas mais frias da La Niña foram gradualmente substituídas pelo aquecimento no Pacífico Tropical que antecedeu o El Niño daquele ano.

Prevenção começa antes da emergência

Para Baldaci, um dos problemas recorrentes diante do clima extremo é esperar que a situação se agrave para então reagir. A experiência de acompanhar e divulgar alertas meteorológicos para a comunidade brasileira nos Estados Unidos reforçou sua defesa por uma cultura de prevenção.

Essa leitura converge com as recomendações dos órgãos brasileiros. O boletim oficial destaca que monitoramento contínuo e planejamento antecipado são fundamentais para reduzir efeitos sobre agricultura, rios, reservatórios e áreas sujeitas a inundações ou deslizamentos.

Para governos municipais e estaduais, a preparação envolve revisar sistemas de drenagem, planos de contingência, monitoramento de encostas, abastecimento de água, prevenção de incêndios e protocolos para eventos extremos.

Para o cidadão, a medida mais importante é acompanhar previsões oficiais e alertas da Defesa Civil, evitando tratar projeções sazonais como previsão exata de uma tragédia. O valor da informação climática está justamente em permitir preparação antes que o risco se transforme em emergência.

O El Niño já chegou. O que ocorrerá em cada cidade dependerá de uma combinação de fatores que continuará sendo atualizada pela ciência ao longo dos próximos meses. A diferença entre informação e alarmismo está em reconhecer essa incerteza sem ignorar a necessidade de prevenção.

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