Existe uma crise financeira no Brasil?
Por: Wellyngton Inácio
Endividamento recorde das famílias, crédito ainda muito caro, perda de fôlego da atividade e uma dívida pública pressionada pelos juros formam uma combinação que merece atenção. O país não está hoje em uma crise financeira sistêmica, mas a capacidade de absorver novos choques está diminuindo.
Segundo a minha análise, o Brasil ainda não vive uma crise financeira. Não há, neste momento, uma quebra generalizada de bancos, paralisação do crédito, explosão do desemprego ou colapso da atividade que permita usar essa expressão com rigor. O diagnóstico, porém, também não autoriza tranquilidade.
O que vejo é um país entrando em uma zona de alerta elevado, na qual diferentes problemas começam a se aproximar: famílias muito endividadas, juros ainda altos, inadimplência crescente no crédito bancário, atividade econômica perdendo velocidade e contas públicas pressionadas por uma combinação difícil de dívida elevada e custo financeiro muito alto.
O risco não está em cada número isoladamente. Está na possibilidade de esses movimentos começarem a se alimentar mutuamente.
O primeiro problema está dentro de casa
A situação das famílias talvez seja hoje o sinal mais evidente.
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor da CNC mostrou que 82% das famílias brasileiras possuíam alguma dívida a vencer em julho, recorde da série. Isso não significa que 82% estejam inadimplentes. A parcela com contas atrasadas ficou em 29,8%, ligeiramente abaixo dos 29,9% de junho. Mas outro dado preocupa: 19% das famílias já destinam mais da metade da renda ao pagamento de dívidas. Entre os endividados, o comprometimento médio chegou a 29,5%.
O Banco Central conta essa história por outra metodologia e chega ao mesmo ponto de atenção. O endividamento das famílias estava em 49,8% da renda, enquanto o comprometimento de renda alcançava 28,2%. A inadimplência das pessoas físicas no conjunto do crédito chegou a 5,6%, e, nas linhas de recursos livres, normalmente mais caras, atingiu 7,6%.
O número que ajuda a explicar essa pressão está nos juros: mesmo depois do início da redução da Selic, o custo médio do crédito livre para pessoas físicas ainda estava em 62,8% ao ano.
Isso significa que o problema brasileiro não é apenas quanto a família deve. É quanto custa carregar essa dívida.
Poder de compra exige uma leitura diferente
Aqui existe uma aparente contradição.
Os dados do mercado de trabalho não mostram, até agora, uma perda generalizada de renda real. No trimestre encerrado em maio, o desemprego estava em 5,6% e o rendimento real habitual alcançava R$ 3.726, alta de 4% em relação ao mesmo período de 2025.
Portanto, seria incorreto afirmar simplesmente que o salário real do brasileiro está despencando.
Minha preocupação é outra: quanto da renda continua efetivamente disponível depois que a família paga moradia, alimentação, transporte, energia e as prestações acumuladas nos últimos anos?
É essa renda livre que determina a capacidade real de consumo.
Uma pessoa pode ganhar mais em termos reais e, ainda assim, chegar ao fim do mês com menos liberdade financeira se uma parcela crescente do orçamento estiver comprometida antes mesmo de o salário cair na conta.
A confiança do consumidor reforça esse sinal. O índice da FGV caiu pelo terceiro mês consecutivo em julho, chegando a 88,3 pontos. A própria FGV destacou piora na percepção sobre o orçamento financeiro das famílias, especialmente entre as de menor renda.
É por isso que, para mim, poder de compra não pode ser medido apenas pela relação entre salário e inflação. É preciso olhar também para aquilo que sobra depois das despesas essenciais e do serviço das dívidas.
A inflação melhora, mas não resolve o problema
Há uma notícia positiva importante.
O IPCA-15 de agosto caiu 0,40%, enquanto a inflação acumulada em 12 meses recuou para 4,24%. Habitação, transportes e alimentação contribuíram para a queda.
Isso ajuda o orçamento.
Mas há duas razões para não transformar esse resultado em diagnóstico de normalidade. Primeiro, parte importante da queda veio de fatores específicos, como o bônus de Itaipu na conta de energia. Segundo, inflação menor significa que os preços estão subindo mais lentamente, ou mesmo caindo em alguns grupos naquele período. Não significa que os aumentos acumulados dos últimos anos desapareceram.
Para uma família já endividada, a redução da inflação é um alívio. Não é uma reconstrução imediata da capacidade financeira.
O crédito continua sendo o transmissor do problema
O Copom reduziu a Selic para 14% ao ano em agosto, dando continuidade ao ciclo de queda. O próprio Banco Central, porém, descreveu uma atividade econômica em moderação e manteve cautela diante da inflação e do cenário fiscal.
Há uma defasagem importante entre baixar a Selic e aliviar a prestação paga pelo cidadão.
O banco continua calculando inadimplência, risco, garantias, histórico do cliente e custo de captação. Por isso, a redução da taxa básica não significa automaticamente crédito barato no cartão, no empréstimo pessoal ou no capital de giro.
Esse mecanismo pode criar uma sequência perigosa:
dívida elevada → parcela pesada → atraso → maior percepção de risco → crédito mais seletivo → menor consumo → menor faturamento das empresas → menos investimento.
Se o emprego começar a enfraquecer nesse momento, a engrenagem passa a funcionar na direção errada com muito mais velocidade.
A atividade já pede atenção
O IBC-Br do Banco Central caiu 0,6% em junho frente a maio, com ajuste sazonal. A indústria recuou 1,4%, os serviços 0,5% e o indicador excluindo a agropecuária caiu 0,9%. No trimestre, porém, ainda houve crescimento de 0,2%, e em 12 meses o avanço foi de 1,5%.
Isso é importante porque impede um diagnóstico exagerado.
Não estamos diante de um colapso da economia. Estamos diante de uma perda de velocidade.
E desaceleração passa a ser mais perigosa quando encontra famílias com pouca margem financeira.
Enquanto emprego e renda permanecem resistentes, existe amortecimento. Se atividade, emprego e crédito piorarem simultaneamente, esse amortecedor começa a desaparecer.
O segundo grande ponto é a dívida pública
Aqui está uma das partes mais delicadas da análise.
A dívida bruta do governo geral chegou a 81,9% do PIB, ou R$ 10,8 trilhões, em junho. No início do ano estava 3,3 pontos percentuais do PIB abaixo desse nível.
Mas o tamanho da dívida sozinho não é suficiente para decretar uma crise.
Países conseguem conviver com dívidas elevadas quando possuem credibilidade, capacidade de financiamento, crescimento econômico e uma trajetória fiscal considerada sustentável.
O problema brasileiro aparece quando observamos o custo dessa dívida.
Em 12 meses, os juros nominais pagos pelo setor público alcançaram R$ 1,160 trilhão, equivalentes a 8,80% do PIB. Somando o resultado primário, o déficit nominal atingiu R$ 1,318 trilhão, ou 9,99% do PIB.
Esse dado, para mim, é mais preocupante do que olhar isoladamente para o percentual da dívida.
Juros elevados pressionam a família que toma empréstimo, a empresa que precisa financiar capital de giro e o próprio governo que precisa carregar sua dívida.
Temos, portanto, três agentes pagando simultaneamente pelo dinheiro caro.
E os gastos do governo?
Também aqui é preciso fugir de uma conclusão fácil.
Dizer apenas que “o governo está gastando muito” não explica o problema.
No primeiro semestre, as despesas do Governo Central cresceram 12,3% em termos reais, enquanto a receita líquida aumentou 5,6%. O déficit primário acumulado foi de R$ 92,2 bilhões.
É um dado que merece atenção, mas parte importante dessa comparação resulta do calendário de precatórios, pagos em março neste ano e em outro período no ano anterior, além da antecipação de despesas discricionárias associada ao calendário eleitoral. O aumento também envolveu Previdência, saúde, educação, pessoal e emendas.
Portanto, não considero correto pegar os 12,3% e concluir automaticamente que houve simplesmente uma explosão descontrolada de gastos.
A pergunta mais importante é outra:
as despesas permanentes estão crescendo em ritmo compatível com a capacidade permanente de arrecadação do Estado?
E existe uma segunda:
quanto do orçamento continuará disponível para investimento e reação a uma recessão depois do pagamento das despesas obrigatórias e dos juros da dívida?
É aí que dívida pública e gastos do governo passam a fazer parte do mesmo problema.
O risco maior é perder os amortecedores ao mesmo tempo
Esse é o ponto central da minha análise.
Uma economia consegue suportar problemas importantes quando algum agente ainda possui capacidade para reagir.
Se a família entra em dificuldade, mas o mercado de trabalho está forte, ela pode recompor a renda.
Se empresas reduzem investimentos, mas o consumo continua firme, parte da atividade se sustenta.
Se famílias e empresas retraem simultaneamente, o governo pode usar políticas públicas e investimento para amortecer a desaceleração.
O cenário realmente perigoso começa quando todos perdem capacidade de reação ao mesmo tempo.
Famílias endividadas não conseguem aumentar consumo.
Empresas diante de vendas mais fracas e crédito caro evitam investir.
Bancos percebem aumento do risco e tornam o crédito mais seletivo.
E um governo com dívida crescente e elevada despesa financeira dispõe de menos liberdade para reagir sem piorar ainda mais sua trajetória fiscal.
A crise, nesse caso, não precisa nascer de um único grande acontecimento. Ela pode surgir da interação entre fragilidades que já existiam separadamente.
Ainda existe uma barreira importante contra uma crise sistêmica
Há uma diferença fundamental entre o cenário atual e uma crise financeira clássica.
O Banco Central considera que o Sistema Financeiro Nacional permanece preparado para enfrentar a materialização do risco de crédito, com provisões, capital e liquidez adequados. O Comef também destaca baixa exposição cambial e pequena dependência de financiamento externo dos bancos.
Esse é um amortecedor poderoso.
Por isso, meu diagnóstico não é de crise bancária nem de ruptura financeira iminente.
O sistema bancário está, neste momento, muito mais sólido do que a situação financeira de parte de seus clientes.
E essa distinção precisa ser feita.
Meu diagnóstico: alerta elevado, não crise instalada
Se eu tivesse que traduzir o quadro atual em uma escala de risco, colocaria o Brasil em laranja forte.
Não vermelho.
Temos hoje sinais positivos importantes: mercado de trabalho ainda resistente, renda real maior que há um ano, inflação recente em desaceleração, início da redução dos juros e sistema bancário capitalizado.
Mas temos também uma combinação que não considero confortável: recorde de famílias endividadas, elevado comprometimento da renda, crédito pessoal ainda extremamente caro, aumento da inadimplência bancária, confiança do consumidor enfraquecida, atividade desacelerando e uma dívida pública cujo custo financeiro ultrapassa R$ 1 trilhão em 12 meses.
Separadamente, nenhum desses elementos determina uma crise.
Juntos, eles reduzem a capacidade do país de suportar um novo choque.
E este é, na minha avaliação, o ponto que merece ser acompanhado.
A janela de risco
Também não considero tecnicamente responsável marcar uma data para uma crise.
Se nada relevante mudar, porém, a janela de maior vulnerabilidade que venho observando está aproximadamente entre seis e 15 meses, com concentração de risco entre nove e 12 meses.
Isso não significa que haverá uma crise nesse período. Significa que, mantendo-se a atual interação entre endividamento, juros, deterioração fiscal e perda gradual de atividade, o sistema pode chegar a esse intervalo com menos mecanismos de defesa.
Essa janela poderia encurtar para algo entre três e seis meses se começássemos a observar simultaneamente piora forte da inadimplência, restrição do crédito, queda de confiança, retração das vendas, redução dos investimentos e enfraquecimento do emprego.
Da mesma maneira, ela pode desaparecer.
Inflação persistentemente menor, queda efetiva do custo do crédito, estabilização do endividamento das famílias, melhora fiscal, recuperação da confiança e manutenção do emprego quebrariam a sequência que hoje preocupa.
O que vou observar daqui para frente
Mais do que tentar adivinhar o mês de uma eventual crise, considero mais útil acompanhar se os mecanismos de defesa continuam funcionando.
O indicador decisivo das famílias será quanto sobra da renda depois das despesas essenciais e das dívidas. No governo, será a capacidade de estabilizar a dívida e reduzir o peso dos juros sem destruir investimento produtivo. Na economia real, será verificar se a atual desaceleração para antes de atingir emprego e renda.
Se esses três amortecedores resistirem, o Brasil provavelmente atravessará o período apenas com crescimento menor e crédito apertado.
Se começarem a falhar juntos, mudarei o diagnóstico.
A crise financeira ainda não chegou. O problema é que o espaço disponível para impedir que ela se forme está ficando menor.
Corte dos dados: 26 de agosto de 2026. Os indicadores possuem datas de referência diferentes conforme o calendário de divulgação de cada instituição.