Professor e doutor em Educação afirma que escola inclusiva exige ambientes acessíveis, participação da família e práticas que respeitem diferentes formas de aprender
A inclusão de estudantes neurodivergentes avançou no ambiente escolar, mas ainda enfrenta um desafio maior: transformar matrícula em participação real. No artigo “A arquitetura da inclusão”, enviado à redação, o professor e doutor em Educação Eugênio Cunha defende que a escola costuma ser a principal porta de entrada do direito à inclusão, enquanto famílias ainda encontram obstáculos em áreas como saúde, terapias especializadas e assistência social.
Segundo o autor, muitas famílias conseguem acolhimento e matrícula para filhos neurodivergentes em escolas públicas ou particulares, mas enfrentam uma realidade mais difícil quando buscam atendimento clínico, terapias, médicos especialistas e suporte intersetorial. Para Cunha, essa diferença mostra que o suporte pedagógico avançou mais do que a articulação entre educação, saúde e assistência social.
No texto, o professor destaca que a escola passou a ocupar papel central nos processos inclusivos. Diante de necessidades diversas, professores têm buscado novas práticas, incluindo estratégias de manejo comportamental, autorregulação, escuta ativa da família e metodologias que ampliem o engajamento dos alunos. A ideia central é que a socialização exige reciprocidade: a interação não pode ser exigida apenas do estudante neurodivergente.
É nesse ponto que ganha força o conceito de Desenho Universal para a Aprendizagem, conhecido como DUA. A proposta parte da ideia de que ambientes, materiais e práticas pedagógicas devem ser planejados desde o início para atender ao maior número possível de pessoas, sem depender apenas de adaptações posteriores. O conceito está associado ao trabalho de David Rose, Anne Meyer e pesquisadores ligados ao CAST, nos Estados Unidos, e se apoia em múltiplas formas de apresentação, engajamento e expressão do conhecimento.
Cunha compara o princípio do DUA à diferença entre uma escada e uma rampa. Enquanto a escada limita o acesso de parte das pessoas, a rampa amplia a circulação para todos. Na educação, isso significa superar a lógica de uma atividade padronizada para depois adaptar o que não funciona. O objetivo é construir, desde o planejamento, um ambiente em que diferentes estudantes possam aprender de formas variadas.
A perspectiva dialoga com diretrizes brasileiras de educação inclusiva. A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva orienta sistemas de ensino a garantir acesso, participação, aprendizagem, atendimento educacional especializado, formação de profissionais, acessibilidade e articulação intersetorial nas políticas públicas.
Para o autor, a inclusão não se resume a adequar uma atividade ou um material. Ela exige reorganizar currículo, flexibilizar práticas, trabalhar com projetos interdisciplinares e permitir que o aluno também escolha formas de aprender e demonstrar o que aprendeu. Essa mudança desloca o foco da deficiência como problema individual para as barreiras criadas pelo ambiente.
O artigo também chama atenção para a importância da colaboração. A escola inclusiva, segundo Cunha, precisa conjugar diferença, diversidade e participação, reconhecendo que ensinar exige comunicação com diferentes modos de ser. Nesse sentido, inclusão não é apenas presença física do aluno na sala de aula, mas construção de vínculos, escuta, pertencimento e aprendizagem possível para todos.
Eugênio Cunha é professor, doutor em Educação e autor dos livros “Autismo e Inclusão”, “Autismo na Escola” e “Afeto e Aprendizagem”, publicados pela WAK Editora. Atualmente, leciona o curso on-line “Práticas em AEE”, organizado pela editora.