A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou o segundo turno de 2026 com uma estratégia que enfatiza as perdas que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) poderia trazer aos eleitores. Após terminar o primeiro turno atrás do adversário, a candidatura petista passou a destacar, em peças de comunicação, ameaças atribuídas à mudança de governo, sobretudo sobre programas sociais.
A abordagem, descrita por analistas como “campanha do medo”, busca deslocar parte do debate das realizações do governo para o risco de perder benefícios e direitos. Reportagem do UOL publicada em 6 de outubro apontou que a intensificação das mensagens negativas integra a disputa pelo voto dos ausentes e de eleitores que apoiaram outras candidaturas.
A disputa tem um componente objetivo: segundo o Tribunal Superior Eleitoral, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos no primeiro turno, enquanto Lula obteve 45,16%. Nenhum dos dois alcançou a maioria absoluta, e a eleição será definida no segundo turno.
O mecanismo da campanha do medo
Na literatura sobre persuasão, o chamado fear appeal, ou apelo ao medo, apresenta uma ameaça considerada relevante para o público e sugere uma ação capaz de evitá-la. Na disputa eleitoral, essa lógica aparece quando uma candidatura procura convencer o eleitor de que determinado resultado trará perdas para sua renda, sua segurança ou seus direitos.
O mecanismo depende da credibilidade do risco apresentado. Uma metanálise publicada na revista Psychological Bulletin reuniu 127 estudos e encontrou evidências de que mensagens de medo podem influenciar atitudes, intenções e comportamentos. O trabalho não analisou a eleição brasileira de 2026 e, por isso, não autoriza concluir que a estratégia será bem-sucedida nas urnas.
Na política, a sequência é reconhecível: primeiro, destaca-se algo valorizado pelo eleitor, como o acesso a medicamentos; depois, associa-se a vitória do adversário à possibilidade de perda; por fim, apresenta-se uma alternativa eleitoral como forma de evitar o resultado temido. Isso não significa que todo alerta sobre consequências políticas seja manipulador. A diferença está na sustentação factual do risco anunciado.
Farmácia Popular e a intervenção do TSE
O limite entre hipótese eleitoral e afirmação factual ganhou relevância nesta sexta-feira (9), quando decisões individuais dos ministros Nunes Marques e André Mendonça determinaram a remoção de vídeos relacionados à campanha de Lula e à primeira-dama Janja. As peças associavam uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro a cortes em políticas sociais.
De acordo com a Agência Brasil, um dos vídeos usava o mote “Se o Flávio vence, você perde” e relacionava uma proposta de redução de gastos públicos a diminuições de recursos para Pé-de-Meia, Farmácia Popular, Minha Casa Minha Vida, merenda escolar e Gás do Povo.
Os ministros reconheceram a legitimidade da crítica política, mas entenderam que a atribuição de cortes em programas específicos não tinha respaldo objetivo suficiente nas propostas ou declarações do candidato do PL. As decisões monocráticas ainda dependem de apreciação do plenário do TSE.
O episódio revela a distinção indispensável ao eleitor. Questionar como uma proposta de ajuste fiscal afetaria o orçamento de programas públicos é parte do debate democrático. Afirmar como certa a extinção de um programa sem que essa medida tenha sido anunciada pelo candidato é algo diferente.
Uma estratégia conhecida da política brasileira
O uso de mensagens centradas no risco não começou nesta eleição. A campanha de Dilma Rousseff em 2014 também explorou consequências negativas atribuídas a propostas de adversários. O princípio é semelhante: quando a oposição apresenta a mudança como oportunidade, a candidatura governista pode responder apresentando-a como ameaça.
A comparação não significa que campanhas de épocas diferentes sejam idênticas. O ambiente digital, a velocidade de circulação de vídeos e os instrumentos de fiscalização eleitoral mudaram. Em 2026, peças publicadas em redes sociais chegam rapidamente ao eleitor e podem se espalhar antes de qualquer contestação formal.
Medo também aparece no discurso adversário
O recurso à comunicação negativa não é exclusividade do campo governista. Na quinta-feira (8), o TSE determinou a retirada de três publicações feitas por Flávio Bolsonaro na rede X. Uma delas utilizava inteligência artificial para simular uma situação inexistente envolvendo Lula; as demais associavam o presidente a organizações criminosas em contexto considerado irregular pelo tribunal.
Assim, a análise da estratégia de Lula não transforma os métodos do adversário em referência de legitimidade. Ambos estão submetidos às mesmas exigências de veracidade e às decisões da Justiça Eleitoral.
Do receio de perder ao debate sobre propostas
A campanha de Lula procura colocar a preservação de benefícios sociais no centro da disputa; Flávio Bolsonaro tenta apresentar sua candidatura como alternativa de mudança e afirma defender a manutenção de programas sociais. A disputa entre essas mensagens é política, mas seus fundamentos podem ser conferidos.
Para o eleitor, a questão decisiva não é apenas se uma propaganda desperta medo, esperança ou indignação. É saber se a ameaça apresentada encontra fundamento no plano de governo, nas propostas e nas declarações efetivas do candidato. Entre alertar para um risco possível e anunciar como certa uma perda não comprovada existe uma fronteira que o debate eleitoral precisa preservar.