O último debate presidencial antes do segundo turno colocou frente a frente dois projetos políticos e duas estratégias de campanha. Na noite de sexta-feira (23), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) discutiram economia, infraestrutura, saúde, segurança pública e programas sociais, em um encontro que alternou propostas, cobranças por resultados e ataques pessoais.
Realizado pela TV Globo, no Rio de Janeiro, com mediação de César Tralli, o confronto ocorreu a apenas dois dias da votação. Diferentemente do debate anterior, na Band, os candidatos tiveram mais oportunidades para desenvolver argumentos. Isso não impediu que perguntas fossem respondidas com comparações entre governos, provocações ou mudanças de assunto.
Flávio apostou na cobrança sobre problemas enfrentados atualmente pela população. Lula procurou demonstrar experiência administrativa e defender as realizações de seus governos, além de questionar posições anteriores do senador.
O salário acaba antes do mês?
Uma das perguntas mais diretas da noite partiu de Flávio Bolsonaro. Ao discutir a economia, o candidato do PL chamou atenção para o orçamento doméstico e questionou se o salário dos brasileiros já havia terminado antes do fim de outubro.
A provocação procurou relacionar inflação, carga tributária e gastos públicos à realidade das famílias. O senador argumentou que os reajustes salariais precisam ser avaliados pelo poder de compra efetivo da população, não apenas pelo aumento nominal dos rendimentos.
Lula respondeu defendendo a política de valorização do salário mínimo e sustentou que seus governos garantiram ganhos reais aos trabalhadores. Também questionou o adversário sobre a continuidade de aumentos acima da inflação.
Flávio afirmou que manteria a valorização do piso salarial e das aposentadorias. O confronto, entretanto, deixou aberta a discussão sobre como conciliar essas promessas com o equilíbrio das contas públicas.
Confusão com o cronômetro chama atenção
A discussão sobre o salário mínimo também produziu uma das cenas mais marcantes do debate.
Lula interrompeu sua manifestação quando ainda restava mais de um minuto do tempo disponível. Flávio tentou iniciar sua fala, mas foi interrompido por César Tralli, que esclareceu que o presidente ainda poderia utilizar o período restante.
O senador contestou a possibilidade de retomada, enquanto Lula afirmou que havia interrompido a intervenção para ouvir o que o adversário sabia sobre o assunto.
A situação provocou um momento de confusão, mas não caracterizou descumprimento das regras. O regulamento permitia aos candidatos administrar o tempo entre suas intervenções.
O episódio mostrou como a condução do debate e o domínio do cronômetro também interferem na dinâmica de um confronto televisionado.
Obras públicas viram disputa sobre resultados
A infraestrutura foi outro ponto de embate.
Flávio abriu o confronto questionando a capacidade do governo federal de concluir obras e citou levantamentos sobre empreendimentos paralisados. A pergunta central era por que o presidente conseguiria entregar novos projetos depois de quatro anos de mandato.
Lula rebateu com referências ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e enumerou investimentos em rodovias, ferrovias e outras áreas. O presidente também criticou a atuação do governo Jair Bolsonaro.
Em determinado momento, comparou o adversário a um estudante que memoriza respostas sem dominar o conteúdo.
A reação acentuou a disputa verbal, mas a discussão sobre obras exige uma distinção importante: a quantidade de empreendimentos paralisados depende do período e da metodologia utilizados no levantamento. Nem toda obra interrompida durante um governo começou ou foi paralisada por responsabilidade daquela administração.
Google entra no confronto
Durante a discussão sobre investimentos e saneamento básico, Lula recomendou que Flávio consultasse o Google para conferir ações realizadas por sua administração.
O senador aproveitou a resposta para ironizar a dependência de pesquisas na internet e cobrar explicações diretamente do presidente.
A troca ganhou repercussão porque expôs a diferença entre mencionar realizações e apresentá-las com detalhes verificáveis.
Lula sustentou que Flávio desconhecia investimentos federais no Amazonas e em outras regiões. O senador defendeu o marco legal do saneamento, aprovado durante o governo Bolsonaro, e prometeu ampliar os serviços de água e esgoto.
O debate poderia ter avançado sobre financiamento, cobertura dos serviços e metas de universalização. Em parte do confronto, porém, a provocação ocupou o espaço que seria destinado ao detalhamento das políticas públicas.
Saúde coloca a pandemia novamente em discussão
No debate sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), Flávio criticou filas de espera, falta de medicamentos e dificuldades de acesso a consultas e atendimentos especializados.
O senador defendeu mudanças na gestão e prometeu enfrentar desperdícios e despesas que considera desnecessárias.
Lula respondeu destacando a importância do SUS durante a pandemia de covid-19. Também criticou a atuação de Jair Bolsonaro na crise sanitária, especialmente em relação à vacinação e à coordenação das medidas de enfrentamento da doença.
O confronto mostrou duas cobranças diferentes: Flávio direcionou suas críticas ao funcionamento atual dos serviços, enquanto Lula destacou a resposta à pandemia e a importância da rede pública.
Flávio reconhece mudança de posição; Lula cobra explicações
A licença-maternidade proporcionou um dos momentos em que houve resposta direta a uma cobrança.
Lula questionou o histórico de Flávio em relação à ampliação do benefício. O senador reconheceu que havia mudado de posição e afirmou que hoje considera importante que mães possam permanecer mais tempo com seus filhos.
A discussão também chegou ao Bolsa Família, à assistência social e à situação das mulheres. Lula defendeu as políticas sociais de seus governos. Flávio procurou demonstrar que manteria benefícios e faria alterações na gestão.
Ataques pessoais interrompem a discussão
Apesar do maior espaço destinado a propostas, as provocações não desapareceram.
Flávio utilizou a expressão “nove dedos” ao criticar Lula durante a discussão econômica, fazendo referência à mão do presidente, e posteriormente pediu desculpas.
Lula, por sua vez, associou o adversário a milícias. Flávio negou envolvimento com essas organizações.
O presidente também mencionou o caso de Ana Clara Gomes Machado, criança morta em Niterói durante uma operação policial em 2021. Flávio atuou como advogado de um policial acusado no processo.
A atuação na defesa de um investigado não demonstra participação do advogado no crime. Acusações sobre vínculos com organizações criminosas exigem provas específicas, independentemente de quem as faça.
Flávio também atribuiu a governos ligados ao PT responsabilidade pelo avanço do crime organizado no Nordeste. A relação entre políticas estaduais e indicadores de violência requer exame de dados, não podendo ser reduzida à filiação partidária dos governadores.
Site indicado por Flávio sai do ar após aumento de acessos
Outro episódio de repercussão ocorreu quando Flávio recomendou ao público o endereço mentirasdolula.com.br, apresentado pela campanha como um espaço para contestar declarações do presidente.
Poucos minutos depois da indicação, a página ficou indisponível em razão do elevado volume de acessos simultâneos, segundo reportagem publicada pelo Metrópoles às 23h49 de sexta-feira (23).
O veículo identificou que o endereço havia sido criado em 16 de outubro pela F.A.R.O., empresa ligada ao marqueteiro Duda Lima, responsável pela campanha de Flávio.
A sobrecarga demonstra a repercussão imediata da indicação, mas não permite determinar quantas pessoas acessaram o portal nem comprova a veracidade das denúncias ali apresentadas. Por sua vinculação à campanha, o conteúdo deve ser analisado como material eleitoral, sujeito a verificação independente.
O desempenho dos candidatos no confronto final
O debate expôs diferenças na utilização do tempo e na maneira como cada candidato reagiu aos questionamentos.
Flávio procurou explorar problemas cotidianos, como o custo de vida, as obras paralisadas e as dificuldades no atendimento público. Manteve suas cobranças mesmo quando Lula deslocou a discussão para resultados de governos anteriores e, no tema da licença-maternidade, reconheceu uma mudança de posição.
O senador também respondeu a perguntas sobre suas propostas e utilizou provocações contra o presidente. Algumas de suas afirmações econômicas exigem contextualização, e as críticas ao adversário nem sempre vieram acompanhadas de dados suficientes.
Lula defendeu o histórico de sua administração e destacou políticas sociais, investimentos e serviços públicos. Entretanto, em passagens como a discussão sobre obras e saneamento, recorreu a comparações políticas e ironias que não esclareceram integralmente os questionamentos. Também dedicou parte de suas intervenções a acusações contra Flávio e ao legado do governo Jair Bolsonaro.
Na administração do cronômetro, o presidente protagonizou a confusão ao interromper sua fala e retomá-la posteriormente. A conduta estava prevista nas regras, mas a cena se tornou um dos momentos mais comentados do encontro. O aproveitamento integral do tempo por cada candidato, por sua vez, depende de conferência do registro completo da transmissão.
O debate terminou com questões concretas ainda abertas: quais obras serão entregues, como controlar os gastos, de que forma preservar o poder de compra e quais recursos sustentarão os compromissos anunciados.
Essas respostas, mais do que a troca de acusações, serão fundamentais para avaliar a consistência dos projetos apresentados ao país.