Operação Metástase investiga grupo suspeito de usar 25 empresas para recolocar medicamentos oncológicos e imunossupressores roubados no mercado público e privado.
Medicamentos destinados a pacientes com câncer e pessoas imunossuprimidas teriam sido roubados, armazenados sem controle conhecido e depois revendidos para hospitais públicos e privados por intermédio de empresas de fachada. O esquema é investigado pela Polícia Civil do Rio de Janeiro na Operação Metástase, deflagrada nesta terça-feira, 21.
A ação cumpriu cinco mandados de prisão preventiva e 97 de busca e apreensão no Rio de Janeiro, em São Paulo, Goiás e Pará. Segundo a investigação, a organização movimentou aproximadamente R$ 33 milhões entre 2025 e 2026 e utilizou cerca de 25 empresas para disfarçar a origem dos medicamentos.
As apurações indicam que os produtos eram oferecidos a hospitais privados e a instituições públicas de saúde por meio de processos de contratação. Os suspeitos apresentariam valores inferiores aos normalmente encontrados no mercado regular, aumentando a competitividade das propostas e facilitando a entrada dos itens roubados na cadeia formal de fornecimento.
O caso levanta uma questão que ultrapassa a investigação criminal: como uma empresa aparentemente regular consegue fornecer medicamentos roubados ao poder público?
Documentação regular não comprova a operação real
Para o advogado Ramon Camurugy, especialista em Direito Administrativo e Licitações, a apresentação de certidões e documentos empresariais é necessária, mas não deve ser a única forma de avaliar um fornecedor.
“A documentação apresentada por uma empresa é importante, mas não deve ser o único elemento analisado. A Administração Pública precisa verificar se a fornecedora possui capacidade operacional compatível com o contrato, estrutura física, histórico de atuação e condições de comprovar a origem lícita dos medicamentos”, afirma.
Uma empresa de fachada pode manter cadastro ativo, emitir nota fiscal, apresentar certidões e participar formalmente de uma contratação. Esses documentos, isoladamente, não demonstram que ela dispõe de estoque regular, funcionários, instalações, autorizações sanitárias e relações comerciais compatíveis com o volume ofertado.
A verificação precisa alcançar o funcionamento efetivo da empresa. Isso inclui endereço, depósitos, capacidade logística, registros sanitários, histórico de fornecimento, composição societária e coerência entre o porte declarado e o contrato que pretende executar.
Preço muito abaixo do mercado exige diligência
A oferta de preços inferiores aos praticados pelos distribuidores regulares pode favorecer uma empresa durante a disputa. Entretanto, uma diferença expressiva precisa ser examinada antes da adjudicação e da entrega.
O preço reduzido pode resultar de negociação legítima, escala, estoque disponível ou condições comerciais específicas. Também pode indicar produto sem procedência, carga desviada, falsificação ou incapacidade de cumprir o contrato.
Nessas situações, a Administração pode promover diligências para esclarecer informações, confirmar documentos e verificar se a proposta é efetivamente executável.
Segundo Camurugy, esse cuidado é ainda mais importante na aquisição de produtos de alto valor e sensíveis às condições de transporte.
“Além da habilitação da empresa, é indispensável conferir a rastreabilidade dos lotes, a documentação fiscal, a cadeia de distribuição e as condições de armazenamento e transporte, fatores que impactam diretamente a segurança dos pacientes”, explica.
Lote precisa ser acompanhado até o hospital
A rastreabilidade permite acompanhar o medicamento desde o fabricante e o distribuidor autorizado até o estabelecimento responsável pela aplicação ou dispensação.
Esse controle deve incluir, conforme o produto e a operação:
- identificação do fabricante e do distribuidor;
- número do lote e prazo de validade;
- notas fiscais da cadeia comercial;
- autorizações sanitárias;
- registro do medicamento;
- condições de armazenamento;
- controle de temperatura;
- documentos do transporte;
- comprovação de entrega e recebimento.
O cruzamento dessas informações pode revelar incompatibilidades. Uma empresa recém-criada, sem estrutura aparente ou com movimentação incompatível com seu porte, por exemplo, não deve ser aceita apenas porque apresentou as certidões básicas exigidas.
A Anvisa mantém medidas de fiscalização e determina a apreensão de medicamentos quando há evidência de furto, falsificação ou origem desconhecida. Em junho, a agência mandou apreender unidades de um medicamento para câncer ocular provenientes de furto ocorrido na Europa, ressaltando que a origem e a segurança dos produtos não poderiam ser garantidas.
Armazenamento inadequado ameaça pacientes
Medicamentos oncológicos e imunossupressores podem exigir controle rigoroso de temperatura, umidade, exposição à luz e transporte. Quando uma carga é roubada, a cadeia regular de conservação é interrompida.
Ainda que a embalagem pareça preservada, não é possível assegurar que o produto tenha sido mantido nas condições determinadas pelo fabricante. Alterações durante o armazenamento ou o transporte podem comprometer a eficácia do medicamento e representar risco ao paciente.
A própria Polícia Civil apontou que o esquema investigado traz ameaça à saúde pública, porque os remédios podem perder eficácia ou sofrer alterações quando mantidos fora das condições adequadas.
Fiscalização deve continuar após a contratação
A análise do fornecedor não termina com a assinatura do contrato. Para Camurugy, o acompanhamento da execução é fundamental para impedir que uma empresa formalmente habilitada entregue produtos sem procedência.
“A adoção de diligências complementares e de mecanismos de fiscalização ao longo da execução contratual torna-se fundamental para reduzir o risco de fraudes”, ressalta.
O recebimento deve envolver conferência física, documental e sanitária. Divergências no lote, na nota fiscal, no distribuidor, na embalagem ou na temperatura precisam ser registradas antes da entrada do produto no estoque hospitalar.
Também é necessário manter documentos que permitam identificar quem forneceu, transportou, recebeu, conferiu e autorizou o pagamento. Essa trilha de controle facilita a responsabilização quando surge uma irregularidade.
A Operação Metástase ainda está em andamento, e as responsabilidades individuais dependerão do avanço das investigações e das decisões judiciais. Os fatos atribuídos ao grupo permanecem sob apuração.
O caso, porém, demonstra que a proteção do dinheiro público e a segurança dos pacientes estão diretamente ligadas. Em compras de medicamentos de alto custo, uma falha de controle não representa apenas prejuízo financeiro. Pode colocar em risco a continuidade e a eficácia do tratamento de pessoas com doenças graves.