Em entrevista ao O Fluminense, Eugênio Cunha afirma que a aplicação da Segurança e Saúde do Trabalho no ambiente escolar ainda enfrenta distância entre teoria e prática
Escola também é ambiente de trabalho
A inclusão dos riscos psicossociais no debate sobre Segurança e Saúde do Trabalho ampliou a necessidade de olhar para a escola também como ambiente de trabalho. O tema é defendido pelo professor Eugênio Cunha, doutor em educação e psicopedagogo, que vê distância entre a teoria das normas de prevenção e a rotina concreta de professores, gestores e funcionários. É preciso que a sociedade reconheça a importância do papel da escola e do professor.
Embora a escola brasileira costume ser analisada pelo desempenho dos alunos, pela gestão pedagógica e pela relação com as famílias, há uma dimensão trabalhista que nem sempre recebe a mesma atenção. Por trás das aulas, reuniões, avaliações, cobranças e conflitos, estão profissionais submetidos a pressões emocionais que podem afetar diretamente a saúde mental.
Para Cunha, doutor em Educação, psicopedagogo, professor da educação básica e do ensino superior, a aplicação das políticas de Segurança e Saúde do Trabalho nas escolas ainda vive um dilema entre teoria e prática. Embora o espaço escolar seja local de trabalho, a cultura de prevenção de acidentes e doenças ocupacionais ficou historicamente em segundo plano, muitas vezes ofuscada pelas demandas pedagógicas.
Saúde mental docente
Segundo ele, essa é uma preocupação relevante que todos deveriam ter, porque as demandas pedagógicas também envolvem a família. Na avaliação do educador, qualquer ação voltada à saúde no trabalho dentro das escolas precisa considerar a participação dos familiares, já que parte importante do estresse docente está relacionada a conflitos com alunos e responsáveis.
“A saúde mental dos professores é um dos temas mais críticos da educação contemporânea”, afirma Cunha. Para ele, burnout, estresse, ansiedade, depressão e sobrecarga de trabalho aparecem como consequências de problemas que envolvem indisciplina, agressões sofridas por professores e o desgaste decorrente do trabalho.
Riscos psicossociais no PGR
O educador defende que precisamos mapear os fatores estressores, identificar os impactos das exigências emocionais da docência e implementar canais de escuta ativa. A proposta é deslocar o tema do campo individual para o campo organizacional: não se trata apenas de observar o professor adoecido, mas de compreender que condições de trabalho favorecem ou agravam esse adoecimento.
A entrada dos riscos psicossociais na agenda da Segurança e Saúde do Trabalho também abre espaço para uma pergunta técnica: como esses riscos devem ser classificados no Programa de Gerenciamento de Riscos, o PGR, dentro das escolas? Para Cunha, há espaço para que o Ministério do Trabalho avance na criação de critérios mais objetivos.
Prevenção precisa sair do papel
“Há espaço, mas esse avanço não será simples e exigirá uma forte pressão técnica e sindical sobre o Ministério do Trabalho”, avalia. Segundo ele, a tendência é que o debate sobre saúde mental na educação pressione a elaboração de normativas capazes de transformar fatores psicossociais em dados e ações organizacionais preventivas.
Na prática, uma política de prevenção nas escolas pode envolver o levantamento de conflitos recorrentes, agressões verbais, sobrecarga de trabalho, excesso de turmas, acúmulo de funções, pressão por resultados, falhas de apoio institucional, afastamentos por adoecimento mental e ausência de canais de acolhimento. Também pode exigir formação de gestores para mediação de conflitos e fortalecimento da comunicação com as famílias.
O desafio é evitar que o tema vire apenas mais um documento burocrático. Para que o PGR tenha efeito real no ambiente educacional, os riscos psicossociais precisam ser tratados como parte da rotina de gestão, com dados, acompanhamento, escuta e medidas preventivas.
Autor dos livros “Afetividade na prática pedagógica”, “Afeto e aprendizagem”, “Autismo e inclusão”, “Práticas pedagógicas para inclusão e diversidade”, “Autismo na escola: um jeito diferente de aprender, um jeito diferente de ensinar” e “Educação na família e na escola”, publicados pela WAK Editora, Eugênio Cunha defende que a escola seja vista como um ecossistema.
Nesse ecossistema, professores, gestores, funcionários, alunos e famílias influenciam diretamente o ambiente de trabalho. Por isso, a saúde mental docente não pode ser tratada apenas como problema individual. Ela também envolve cultura institucional, prevenção, organização do trabalho e responsabilidade coletiva.
Nota editorial:
Entrevista conduzida por Wellyngton Inácio, jornalista e engenheiro de Segurança do Trabalho.
Fonte:
Entrevista concedida por Eugênio Cunha ao O Fluminense.