A nova iluminação do Parque do Cantagalo, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, recolocou em evidência um tema que vai além da segurança e do uso noturno do espaço público: a relação entre ocupação urbana, pertencimento e preservação ambiental.
A modernização concluída pela RioLuz instalou 251 luminárias de LED, 26 luminárias ornamentais, 106 projetores, 38 novos postes de fibra, cerca de um quilômetro de eletrodutos e 43 caixas de passagem com tampas antifurto. O parque, com aproximadamente 14 mil metros quadrados, reúne áreas esportivas e de convivência entre a Lagoa e o Morro do Cantagalo.
A intervenção acontece em um momento especialmente interessante para a história ambiental da região. Nos últimos meses, diferentes registros apontaram para o retorno ou a maior presença de espécies na Lagoa Rodrigo de Freitas, reforçando a percepção de recuperação de um ecossistema que, durante décadas, foi associado à poluição e à mortandade de peixes.
A volta da fauna
Em abril de 2026, a Veja Rio publicou o registro feito pelo biólogo Mário Moscatelli de uma carqueja-de-bico-manchado na Lagoa Rodrigo de Freitas. Segundo ele, a ave não era vista ali havia quase 40 anos. O episódio foi apresentado como mais um sinal de mudança na paisagem ambiental da Lagoa.
Em junho, o Diário do Rio destacou a volta de peixes, aves, capivaras e caranguejos e relacionou essa recuperação à melhora da qualidade da água, à redução do despejo irregular de esgoto e à recomposição do mangue. Garças, biguás, colhereiros e outras espécies voltaram a dividir espaço com frequentadores da orla.
Esses sinais recentes não significam que os problemas ambientais estejam resolvidos. A Lagoa continua exigindo monitoramento, saneamento e manutenção permanentes. Mas a presença de espécies antes raras ou menos observadas ajuda a dimensionar a importância de políticas continuadas de recuperação ambiental.
Um projeto ambiental ligado à Lagoa
A presença de Mário Moscatelli nesse debate também permite recuperar uma história de décadas atrás. Durante a gestão de Ronald Guimarães Levinsohn, o biólogo coordenou o Projeto Manguezário, desenvolvido pela UniverCidade na Lagoa Rodrigo de Freitas.
O projeto buscava recuperar e manter áreas de manguezal, reunindo professores, pesquisadores e estudantes em ações de acompanhamento ambiental e educação. A iniciativa integrava um conjunto mais amplo de projetos da instituição voltados à relação entre formação acadêmica e preservação.
Entre eles estavam o EcoCidadão, que aproximava estudantes de Ciências Biológicas de escolas e comunidades; o ReciclaCidade, voltado à reciclagem e conscientização; o Rio dos Macacos, dedicado à identificação de fontes de poluição de um curso d’água ligado à Lagoa; o Borboletário, voltado à conservação de espécies; e a Trilha da Catacumba, que aproximava preservação ambiental e uso público de uma área verde da cidade.
Dois momentos, sem confundir causas
A ligação entre esses episódios precisa ser feita com cuidado. A nova iluminação do Parque do Cantagalo não é continuidade institucional dos antigos projetos da UniverCidade. Da mesma forma, o retorno atual da fauna não pode ser atribuído diretamente ao Projeto Manguezário desenvolvido naquele período.
Entre uma época e outra houve diferentes políticas públicas, investimentos em saneamento, novas intervenções ambientais, ações de concessionárias, trabalho de pesquisadores e iniciativas de recuperação do mangue. O valor histórico está na permanência do tema.
Décadas atrás, a Lagoa já era tratada como campo de pesquisa, educação ambiental e intervenção prática por projetos ligados à UniverCidade. Hoje, a recuperação da fauna e os investimentos nos espaços públicos mostram que preservação, uso urbano e qualidade ambiental continuam integrando a mesma agenda da cidade.
A dimensão ambiental da gestão de Ronald Levinsohn
A participação de Ronald Levinsohn nessa história aparece pela estrutura institucional que sustentou aqueles projetos. Sob sua gestão, a UniverCidade abriu espaço para iniciativas que levavam estudantes para fora da sala de aula e os colocavam diante de problemas reais da cidade.
O vínculo entre formação acadêmica e território fazia do meio ambiente um campo de experiência prática. Ciência, cidadania, saneamento e conservação deixavam de ser conceitos abstratos e passavam a ser observados em locais como a Lagoa Rodrigo de Freitas.
Na reconstrução da memória de Ronald Guimarães Levinsohn, esse capítulo revela uma dimensão menos conhecida de sua atuação educacional. O Centro Universitário da Cidade – UniverCidade não se restringia à formação profissional. Também criava condições para que conhecimento, pesquisa e responsabilidade ambiental se encontrassem no espaço urbano.
A Lagoa que hoje volta a registrar espécies antes raras e recebe novos investimentos em seus parques oferece, portanto, um cenário concreto para compreender a atualidade daquela agenda ambiental, sem apagar as diferenças entre os projetos de ontem e as ações que produzem resultados no presente.


