Estudo da CNI revela que a proteção social supera o desejo de autonomia; jovens lideram a busca por estabilidade em um mercado de trabalho em transformação.
Apesar do forte discurso sobre o “fim do emprego tradicional” e a ascensão da economia de aplicativos, o brasileiro nunca valorizou tanto a carteira assinada. Um levantamento abrangente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), realizado pelo Instituto Nexus, confirma: a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) permanece como o padrão ouro para quem busca inserção no mercado de trabalho em 2026.
Mesmo com a expansão da “gig economy” e de modelos de contratação flexíveis, a segurança jurídica e os benefícios sociais continuam sendo os principais motivadores.
“O acesso a direitos e à proteção da Previdência Social não é visto apenas como burocracia, mas como um diferencial competitivo”, explica Claudia Perdigão, especialista da CNI. “O trabalhador percebe que, em um cenário global incerto, a estabilidade e a rede de proteção da CLT são fundamentais.”
O Mapa das Preferências: Onde o Brasileiro Quer Estar?
Os dados mostram uma fragmentação do mercado, mas com uma liderança clara do modelo formal. Um ponto de atenção é que 20% da população ainda sente que as oportunidades atuais não são atrativas o suficiente.
Ranking de Atratividade por Modalidade
| Posição | Modalidade de Trabalho | Preferência |
| 1º | Carteira Assinada (CLT) | 36,3% |
| 2º | Trabalho Autônomo | 18,7% |
| 3º | Emprego Informal | 12,3% |
| 4º | Plataformas Digitais (Apps) | 10,3% |
| 5º | Empreendedorismo (Negócio Próprio) | 9,3% |
| 6º | Prestação de Serviço (PJ) | 6,6% |
O “Mito da Liberdade” e a Geração Z
A pesquisa quebra o paradigma de que os jovens preferem apenas a flexibilidade. Na verdade, os grupos de 16 a 34 anos são os mais ávidos por segurança:
- 25 a 34 anos: 41,4% priorizam a CLT.
- 16 a 24 anos: 38,1% buscam o primeiro emprego formal.
Para a CNI, isso reflete o desejo de construir uma base financeira sólida no início da vida adulta, permitindo planos de longo prazo como moradia e educação.
Aplicativos: O Triunfo da Renda Extra
O estudo enterra a ideia de que o trabalho por aplicativos é o “novo emprego fixo”. Apenas 30% dos motoristas e entregadores veem a atividade como fonte principal de sustento. Para os outros 70%, as plataformas são ferramentas de complemento de renda, utilizadas para fechar as contas no fim do mês.
Retenção: O Desafio de Tirar o Talento da Cadeira
Com 95% dos brasileiros empregados declarando satisfação (e 70% muito satisfeitos), a mobilidade no mercado caiu.
- Apenas 20% dos profissionais buscaram novas vagas recentemente.
- A rotatividade é um fenômeno de quem tem menos de um ano de casa (36,7% buscam sair), enquanto quem passa da barreira dos 5 anos tende a se estabilizar (apenas 9% buscam nova vaga).
Duelo de Modelos: CLT vs. PJ
Para entender por que a CLT vence a preferência popular, é preciso olhar além do salário bruto.
| Característica | Carteira Assinada (CLT) | Prestador de Serviço (PJ) |
| Proteção Social | Auxílio-doença e licenças garantidas. | Depende da contribuição individual. |
| Reserva Financeira | FGTS (8% ao mês) + Multa de 40%. | O profissional deve gerir sua própria reserva. |
| Renda Extra Anual | 13º Salário e Férias + 1/3 obrigatórios. | Precisa de planejamento para períodos sem faturamento. |
| Custo Operacional | Zero para o funcionário. | Gastos com contabilidade, impostos (DAS/GPS) e equipamentos. |
Por que a balança pende para a CLT?
- A Rede de Segurança: O auxílio-doença calculado sobre o salário integral protege contra o imprevisto. No modelo PJ, muitos contribuem pelo mínimo, ficando vulneráveis em casos de saúde.
- Facilitador de Crédito: O emprego formal ainda é a chave principal para aprovação de financiamentos imobiliários e bancários.
- Saúde Mental: A “conveniência administrativa” de não precisar gerir impostos e contabilidade própria reduz a carga cognitiva do trabalhador.
Sobre o Levantamento
- Amostra: 2.008 entrevistas em todas as 27 capitais e regiões do país.
- Período: Coleta em outubro de 2025; Consolidação em abril de 2026.
- Realização: Instituto Nexus para a Confederação Nacional da Indústria (CNI).