Candidato pelo Republicanos cita experiência na Polícia Federal, uso de tecnologia e fortalecimento das investigações entre as prioridades para um eventual mandato
O delegado da Polícia Federal Deuler da Rocha Gonçalves Junior, candidato a deputado federal pelo Republicanos no Rio de Janeiro, pretende levar para a Câmara dos Deputados temas que marcaram sua trajetória profissional, como segurança pública, combate à corrupção, investigação financeira e uso de tecnologia pelas forças policiais.
Nascido em Niterói e formado em Direito pela Universidade Federal Fluminense, Deuler afirma ter mais de três décadas de atuação na Polícia Federal. Antes de ingressar na corporação, trabalhou como analista processual na Procuradoria da República entre 1992 e 1996. A candidatura e o perfil profissional foram apresentados em entrevista publicada nesta quinta-feira, 13 de agosto, pelo Última Hora Online.
O episódio mais destacado pelo delegado ocorreu em 1997, durante investigação relacionada ao Banco do Estado do Amapá, o Banap. Documentos da época confirmam que o banco foi liquidado pelo Banco Central após uma operação irregular envolvendo títulos no valor de US$ 6 bilhões, lastreados em documentos falsos relacionados a terras no Mato Grosso.
Caso Banap marcou trajetória
Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em setembro de 1997 registrou a prisão, pela Polícia Federal, de Ricardo Saad Filho, acusado de apresentar documentos falsificados relacionados à operação do Banap. O Banco Central apontou irregularidades na emissão dos títulos e decretou a liquidação da instituição.
O Senado também registrou oficialmente que a liquidação ocorreu em meio à operação fraudulenta de US$ 6 bilhões. O então senador Sebastião Rocha declarou, naquele período, que o episódio exigia apuração de responsabilidades e punição dos envolvidos.
Deuler atribui à experiência adquirida nesse tipo de investigação parte de sua decisão de entrar na política. Em entrevista, afirmou que pretende utilizar um eventual mandato para fiscalizar órgãos públicos e propor mudanças legislativas relacionadas à segurança e ao combate aos crimes financeiros.
Tecnologia aparece entre as propostas
Entre as ideias defendidas pelo candidato está a ampliação do uso de recursos tecnológicos pelas forças de segurança. Ele cita reconhecimento facial, análise de dados, monitoramento territorial e ferramentas de inteligência como instrumentos que poderiam ser utilizados de maneira mais integrada no combate ao crime organizado no Rio.
Deuler também defende planejamento de longo prazo para a recuperação de áreas controladas por organizações criminosas. Segundo ele, operações isoladas têm alcance limitado quando não são acompanhadas de inteligência, presença permanente do Estado e definição de prioridades.
Outro ponto apresentado pelo delegado é o policiamento de proximidade, modelo no qual agentes mantêm maior interação com moradores e comerciantes das regiões em que atuam.
Autonomia das investigações
A autonomia das instituições policiais também está entre os temas defendidos por Deuler. Na avaliação do candidato, investigações precisam preservar sigilo, independência técnica e respeito às decisões judiciais.
Ele argumenta que o trabalho da Polícia Federal frequentemente provoca reação política quando alcança integrantes de diferentes grupos ou partidos, e defende que decisões e investigações sejam sustentadas por critérios jurídicos e técnicos.
A discussão ocorre em um cenário no qual operações recentes da própria PF continuam concentradas no rastreamento de recursos, lavagem de dinheiro e estruturas financeiras utilizadas pelo crime organizado. Em julho, por exemplo, uma investigação no Rio apontou movimentações superiores a R$ 7,6 bilhões por um grupo criminoso, segundo relatório do Coaf citado pela corporação.
Experiência internacional
Deuler também atuou como observador de paz das Nações Unidas. Segundo seu relato, a experiência permitiu contato com diferentes modelos internacionais de segurança pública.
O candidato afirma que pretende aproveitar referências externas na formulação de propostas para o Rio, mas sustenta que a adaptação deve considerar características locais, como a presença de facções, milícias e domínio territorial armado.
Em eventual mandato federal, ele também cita como bandeiras mudanças no foro por prerrogativa de função, mecanismos de fiscalização do poder público e maior participação da população na definição das prioridades orçamentárias.
A entrada de Deuler na disputa pela Câmara transforma sua trajetória na Polícia Federal em principal ativo político da campanha. O desafio eleitoral será converter experiência técnica e discurso de segurança pública em propostas legislativas concretas para uma Casa que reúne competências nacionais muito mais amplas do que a atuação operacional das polícias.