Direitos, planejamento e cidadania
Por: Glauco Wamburg
Presidente eleito e a Previdência se mantem uma conta em aberto
As eleições terminaram. Temos, de novo, em um quarto mandato, um presidente eleito. Numa virada inédita sobre quem largou na frente no primeiro turno. Muito bem. Agora, acabou a campanha e começou a vida real. E a vida real chega com boleto.
O boleto tem nome: Previdência.
Só no primeiro semestre deste ano, o rombo do regime geral passou de 230 bilhões de reais. Não é número de planilha. É dinheiro que falta para as políticas públicas e em todos os projetos de investimento do governo. Já a dívida pública, essa caminha para além de 80% do PIB, com gente séria projetando coisa bem pior para a próxima década.
E o mercado? Esse se apresenta de terno e gravata, exigindo ajuste e pressionando a bolsa. E eu peço licença para uma pergunta simples: ajuste em cima de quem? Porque no Brasil o ajuste tem endereço preferido: o aposentado, o salário mínimo, a viúva, o trabalhador rural que pegou na enxada por anos… Esses sempre pagam primeiro.
A conta, de verdade, não fecha sozinha. Não fecha. O país envelhece, quem contribui diminui, quem recebe aumenta. Isso é aritmética, não ideologia. Fingir que o problema não existe é tão irresponsável quanto querer resolvê-lo só na tesoura, cortando de quem já tem pouco.
Então, se vier reforma da Previdência, e é bom que o governo diga com franqueza se vem ou não, que comece por cima. Pelas aposentadorias precoces de certas corporações. Pelos super salários que furam o teto com adicionais. Pela previdência dos militares, que seguem num mundo à parte. Pelas isenções fiscais bilionárias que muitas vezes nem sabe direito quem recebe.
E que o investidor, esse também precisa entender qual o caminho está sendo escolhido: credibilidade não se compra com discurso de posse. Compra-se com regra clara, meta cumprida e menos maquiagem contábil (essa mania de tirar despesa da conta para anunciar que a conta fechou).
O desafio dos próximos quatro anos é esse: equilibrar as contas sem rasgar o contrato com quem passou a vida contribuindo, assinado e homologado nas urnas. Proteger direito não é gastança. Gastança é privilégio.
A promessa feita foi cuidar do povo. Ótimo. Cuidar do povo também é não deixar a dívida explodir no colo dos netos dessa atual geração o desafio é, portanto, governar com a calculadora numa mão e a responsabilidade social na outra.