Niterói anuncia 18 meses sem feminicídio, mas casos de Andréa e Izabela expõem divergência nos registros

Foto: Gerada por IA Legenda: Prefeitura de Niterói afirma que o município completou 18 meses sem feminicídio com base nos dados do ISP. Casos ocorridos no período levantam questionamentos sobre classificação e eventual reclassificação dos registros.

Prefeitura atribui marca aos dados do ISP, mas dois casos ocorridos dentro do período levantam dúvidas sobre reclassificações e sobre como a estatística oficial é consolidada

A Prefeitura de Niterói anunciou, em 25 de setembro, que o município havia completado 18 meses sem registrar feminicídio. O dado foi apresentado pelo prefeito Rodrigo Neves durante seminário sobre enfrentamento à violência contra a mulher e associado às políticas municipais de prevenção, acolhimento e proteção. Prefeitura de Niterói 18 meses sem feminicídio

A sequência divulgada pelo município, porém, convive com pelo menos dois casos ocorridos dentro desse período que exigem esclarecimento: as mortes de Andréa de Souza Mateus Gomes, em dezembro de 2025, e Izabela Leite, em julho de 2026.

A questão não permite concluir, até agora, que a estatística do Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro esteja errada. Investigações criminais podem sofrer mudanças de tipificação ao longo do inquérito. Mas os dois episódios tornam necessária uma pergunta objetiva: qual é hoje a classificação oficial desses casos e por que eles não interrompem a contagem apresentada à população?

ANDRÉA FOI AUTUADA INICIALMENTE COMO FEMINICÍDIO

Andréa de Souza Mateus Gomes, de 50 anos, morreu depois de ser esfaqueada em 7 de dezembro de 2025, nas proximidades da Estação das Barcas, no Centro de Niterói.

No dia seguinte, o ErreJota Notícias publicou que, segundo a Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí, a suspeita havia sido autuada em flagrante por feminicídio. A reportagem informou ainda que as diligências prosseguiam para apurar a morte. ErreJota Notícias Feminicídio no Centro de Niterói

Dezembro de 2025 está dentro do intervalo que a Prefeitura posteriormente apresentou como parte dos 18 meses sem feminicídio.

Isso cria uma questão documental importante. Se a classificação de feminicídio foi mantida no registro policial consolidado, o caso precisaria ser reconciliado com a série divulgada. Caso a investigação tenha sido posteriormente reclassificada como homicídio ou outro crime, é essa alteração que precisa ser conhecida.

Até o momento, a apuração consultada pelo O FLUMINENSE não localizou documento primário que demonstre qual foi a tipificação final do caso.

IZABELA MORREU DOIS MESES DEPOIS DAS AGRESSÕES

O caso de Izabela Leite, de 30 anos, apresenta uma trajetória diferente.

Ela foi agredida em 2 de maio de 2026, em Niterói. Cinco dias depois, o ex-companheiro foi preso temporariamente por agentes da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher de Niterói. À época, a ocorrência era investigada como tentativa de feminicídio. Izabela sofreu graves lesões e permaneceu internada por mais de dois meses.

Em 8 de julho, ela morreu no Hospital Estadual Azevedo Lima.

Depois do óbito, O Dia informou que o caso, inicialmente tratado como tentativa, deveria ser reclassificado como feminicídio consumado. O Dia Vítima de feminicídio é sepultada em Niterói O portal A Seguir Niterói publicou no dia seguinte que a cidade voltava a registrar um caso de feminicídio após 16 meses. A Seguir Niterói Niterói volta a registrar caso de feminicídio depois de 16 meses

Mas há uma diferença importante entre o que foi noticiado e o que está documentalmente comprovado.

A pesquisa não encontrou, até agora, documento da Polícia Civil, do Ministério Público ou da Justiça demonstrando que a reclassificação de tentativa para feminicídio consumado foi efetivamente concluída e incorporada ao registro que alimenta as estatísticas do ISP.

Esse detalhe é decisivo.

PREFEITURA MANTEVE A CONTAGEM MESMO APÓS A MORTE

Em agosto, mais de um mês depois da morte de Izabela, a Secretaria de Ordem Pública informou que Niterói havia completado 17 meses sem feminicídio. Segundo a nota, baseada em dados do ISP, nenhum caso havia sido contabilizado entre janeiro e julho de 2026 e o último feminicídio registrado na cidade teria ocorrido em fevereiro de 2025. Secretaria de Ordem Pública Niterói completa 17 meses sem feminicídio

Em setembro, a contagem avançou para 18 meses. Prefeitura de Niterói município destaca 18 meses sem feminicídio

Assim, a divergência não está necessariamente entre um número oficial e outro número oficial. Ela está entre a série estatística divulgada pela administração e classificações atribuídas às autoridades policiais ou reproduzidas pela imprensa no momento em que os casos ocorreram.

Essa distinção precisa ser preservada.

UMA ESTATÍSTICA DEPENDE DA CLASSIFICAÇÃO DO REGISTRO

Os indicadores criminais do ISP são produzidos a partir dos Registros de Ocorrência da Polícia Civil. O próprio ISP informa que suas estatísticas têm como fonte os registros da Secretaria de Estado de Polícia Civil e que alterações decorrentes de aditamentos nos registros podem produzir mudanças nas séries divulgadas. ISP Mulher dados e metodologia sobre feminicídio

Uma ocorrência pode ser registrada inicialmente sob determinado título e ter sua classificação alterada conforme avançam investigação, perícia e análise jurídica.

No caso de Izabela, por exemplo, maio começa com uma tentativa de feminicídio porque a vítima ainda estava viva. Depois da morte, em julho, seria necessário saber se o mesmo registro foi alterado, se houve novo registro ou se a investigação permaneceu enquadrada em outro crime.

No caso de Andréa, a pergunta é ainda mais direta: a autuação inicial por feminicídio foi mantida ou modificada posteriormente?

Sem essas informações, reproduzir simplesmente que Niterói passou 18 meses “sem feminicídio” transforma uma estatística administrativa em uma afirmação absoluta que os próprios casos conhecidos recomendam examinar com mais cuidado.

ONDE ESTÃO ANDRÉA E IZABELA NESSA CONTA?

O ponto central não é desconsiderar políticas públicas de proteção às mulheres nem negar eventuais avanços nos indicadores de segurança.

É exigir transparência sobre um número que foi usado publicamente como demonstração de resultado administrativo.

Quando uma gestão apresenta a ausência de feminicídios como indicador de sucesso, também precisa permitir que a sociedade conheça a memória de cálculo, os critérios utilizados e a forma como casos reclassificados são tratados.

Por isso, duas perguntas permanecem sem resposta documental:

Andréa e Izabela ficaram fora da conta divulgada porque seus casos foram posteriormente reclassificados?

Se foram, quando, para qual crime e com qual fundamento?

A resposta pode mostrar que a estatística utilizada pela Prefeitura está tecnicamente correta. Pode também revelar necessidade de revisão ou atualização.

O que não é recomendável é deixar essa diferença sem explicação.

Até que os registros finais sejam conhecidos, a formulação mais rigorosa é esta: a Prefeitura de Niterói afirma, com base nos dados do ISP, que o município completou 18 meses sem feminicídio. Os casos de Andréa e Izabela, porém, exigem esclarecimento sobre como foram classificados e incorporados à estatística oficial.

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