Preço continua decisivo, enquanto funcionalidade, conforto e durabilidade ganham peso nas escolhas e influenciam o varejo de moda
O consumo mais pragmático vem ganhando espaço nas decisões dos brasileiros. Em vez de observar somente lançamentos e tendências, parte do público passou a considerar com mais atenção o preço, a funcionalidade e o tempo de uso dos produtos.
A Pesquisa de Sentimento do Consumidor Brasil 2025, realizada pelo Boston Consulting Group com 1.829 entrevistados, aponta que o preço continua sendo o principal fator de decisão. O levantamento também identifica maior busca por custo-benefício e funcionalidade.
Os resultados não significam que as tendências deixaram de influenciar as compras nem comprovam uma redução geral do consumo. Eles indicam, porém, que a novidade passou a dividir espaço com critérios relacionados à utilidade, à adequação à rotina e à capacidade financeira de cada consumidor.
Preço, ajuste e uso cotidiano
Na moda, um levantamento realizado entre novembro e dezembro de 2025 ajuda a dimensionar essa combinação de critérios. O Estudo Global de Circularidade da Shein ouviu 15.461 clientes da empresa, com idades entre 18 e 44 anos, em 21 mercados.
Entre os participantes, 71,6% disseram considerar sempre o preço nas compras de roupas pela internet. A disponibilidade de tamanhos adequados foi mencionada por 66,7%, enquanto 53,8% avaliaram se a peça atendia à rotina ou a mudanças nas necessidades pessoais.
A durabilidade também apareceu associada à sustentabilidade: 47% dos entrevistados relacionaram roupas sustentáveis à qualidade capaz de prolongar o tempo de uso. A pesquisa, entretanto, retrata clientes da própria empresa e não representa estatisticamente toda a população brasileira.
Outro levantamento oferece um contraponto à ideia de que os consumidores simplesmente passaram a comprar menos. Estudo do IEMI sobre o período entre 2000 e 2024 indica que o consumo de vestuário aumentou 42% em número de peças. Ao mesmo tempo, as roupas se tornaram mais leves, informais, confortáveis e baratas.
Moda entra em novo cálculo de valor
Para Márcia Mesquita, doutora em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense e pesquisadora de comportamento de consumo ouvida para esta matéria, a mudança também está relacionada à percepção sobre a qualidade de peças produzidas em ciclos acelerados.
Segundo ela, parte dos consumidores passou a observar quanto tempo uma peça permanece em condições de uso e quanto descarte pode ser provocado por produtos com menor durabilidade.
“No fim, a decisão de compra passa a ser guiada não apenas pelo preço, mas também pela qualidade e pela durabilidade”, afirma Márcia, em declaração encaminhada com a pauta.
A percepção identificada nas pesquisas também aparece no varejo de moda. Rodrigo Fávero, CEO e sócio da Soulier, ouvido para esta matéria, afirma que conforto, qualidade e versatilidade passaram a ocupar lugar mais relevante nas escolhas dos clientes.
“A busca por qualidade e versatilidade deixou de ser um diferencial para se tornar um dos principais critérios de compra”, afirma o executivo.
A avaliação de uma empresa do setor funciona como percepção do mercado e não substitui pesquisas independentes. Os dados disponíveis sustentam, contudo, a existência de decisões mais pragmáticas, nas quais preço, estilo, conforto, ajuste e vida útil são avaliados em conjunto. Mais do que abandonar tendências, o consumidor parece recalcular o valor de cada compra.