Por: Wellyngton Inácio
A economia fluminense encerra a semana mostrando duas realidades que precisam ser lidas juntas. O Rio ganhou força no comércio exterior, com aumento das exportações, enquanto o consumidor continua encontrando pressão justamente onde o orçamento é mais sensível: na alimentação.
Esse contraste ajuda a explicar por que um indicador positivo para o estado não se transforma automaticamente em sensação de melhora dentro de casa.
Rio ganha força lá fora
As exportações do Rio de Janeiro somaram US$ 38,3 bilhões entre janeiro e agosto, crescimento de 20% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo o boletim Rio Exporta, da Firjan.
O resultado é relevante porque movimenta empresas, portos, logística, fornecedores e arrecadação. Também mostra que o estado continua tendo peso importante no comércio exterior brasileiro.
Mas existe uma característica que não pode ser ignorada: petróleo e gás representam 80% da pauta exportadora estadual.
A força desse setor impulsiona a economia do Rio, mas também evidencia uma concentração que deixa o estado mais exposto às oscilações internacionais de preços, demanda e geopolítica.
Para a economia fluminense, portanto, exportar mais é uma boa notícia. O desafio é transformar essa receita em investimento, fornecedores locais, emprego e renda fora da cadeia diretamente ligada ao petróleo.
Inflação desacelera, mas alimento pressiona
Do outro lado está o orçamento doméstico.
A prévia da inflação oficial desacelerou em outubro. O IPCA-15 ficou em 0,32%, abaixo do resultado de setembro.
O número geral poderia sugerir um mês mais confortável para o consumidor. A composição do índice, porém, mostra uma realidade mais complexa.
Alimentação e bebidas avançaram 0,88%, a maior variação entre os grupos pesquisados e também a principal pressão sobre o indicador.
É justamente aí que a inflação deixa de ser uma discussão abstrata.
Famílias podem adiar a troca de um eletrodoméstico, uma viagem ou uma compra maior. Alimentação não permite o mesmo grau de escolha. Quando o supermercado pesa mais, a renda disponível para outras despesas diminui.
O efeito chega também ao comércio, aos restaurantes, às padarias e aos pequenos prestadores de serviços, porque o consumidor começa a selecionar gastos com mais rigor.
O petróleo ajuda, mas não resolve sozinho
O bom desempenho das exportações precisa ser observado também pela capacidade de espalhar renda pelo território.
Quando uma atividade exportadora cresce, parte desse movimento chega a transportadoras, manutenção, serviços empresariais, fornecedores e trabalhadores. O efeito, porém, depende da quantidade dessas conexões mantidas dentro do próprio estado.
Por isso, o debate econômico do Rio não pode terminar na quantidade exportada.
A questão é saber quanto dessa força externa consegue estimular investimento produtivo, contratação e consumo em Niterói, São Gonçalo, na capital, na Região Metropolitana e nos municípios ligados às cadeias de petróleo, indústria e logística.
Crescer para fora e melhorar por dentro
O quadro desta semana não é contraditório. Ele mostra duas etapas diferentes da economia.
O Rio pode ampliar exportações e, ao mesmo tempo, ter famílias pressionadas pelo preço dos alimentos. Uma coisa não anula a outra.
Para o cidadão, a orientação continua sendo acompanhar o orçamento pelo que efetivamente pesa no mês, e não apenas pelo índice médio de inflação.
Para as empresas, exportação e atividade econômica mais fortes são positivas, mas vendas internas, custos e comportamento do consumidor continuam exigindo atenção.
E para o poder público existe uma cobrança objetiva: o ganho produzido pela força exportadora precisa ser convertido em investimento, infraestrutura, emprego e diversificação econômica.
O Rio já demonstra capacidade para vender ao mundo. O próximo teste é fazer essa força aparecer com mais clareza no bolso de quem vive aqui.
XXXXXXXX FONTES ACESSADAS XXXXXXXXXX
https://www.firjan.com.br/noticias/rio-exporta-rj-obtem-crescimento-de-20-das-exportacoes-no-acumulado-anual-ate-agosto.htm
https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202610/previa-da-inflacao-de-outubro-e-menor-com-queda-de-precos-de-agua-e-luz
https://portalibre.fgv.br/press-releases/economia-cresce-05-em-agosto-em-comparacao-ao-mes-anterior